A previsão de intensificação do El Niño e a possibilidade de o fenômeno persistir até fevereiro de 2027 aumentam a preocupação com os efeitos de eventos climáticos extremos. Diante desse cenário, especialistas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) destacam medidas que podem contribuir para reduzir impactos tanto nas áreas urbanas quanto no campo.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), emitiu no dia 3 de setembro um novo alerta indicando que o fenômeno El Niño deve continuar ganhando intensidade e atingir seu pico entre o final deste ano e fevereiro de 2027.
Com probabilidade de quase 100% de persistência nos próximos meses, a possibilidade da ocorrência de um “Super El Niño”, classificado como de intensidade “muito forte”, amplia os riscos de períodos prolongados de seca, temperaturas extremas e chuvas desproporcionais em diferentes regiões do Brasil e do mundo.
Nesse contexto, planejamento estrutural, acompanhamento meteorológico e práticas voltadas à conservação ganham importância. A atuação integrada de profissionais da Engenharia, Agronomia e Geociências pode contribuir para antecipar problemas, aumentar a segurança da população e reduzir prejuízos às cadeias produtivas.
Impactos do El Niño no campo
Na agricultura, o fenômeno pode alterar diretamente o calendário de produção e comprometer a viabilidade das lavouras. A engenheira agrônoma Gisele Herbst Vasquez, diretora técnica do Crea-SP, chama atenção principalmente para os impactos econômicos e sociais.
“No campo, o maior risco é a quebra de safras, o que afeta a renda do produtor rural, gera inflação e ameaça a segurança alimentar da população”, ressalta.
Segundo Gisele, algumas técnicas agronômicas podem ajudar a reduzir os efeitos provocados pelas alterações climáticas.
“Práticas como plantio direto, terraceamento e drenagem funcionam como uma espécie de esponja natural, reduzindo enxurradas, aumentando a infiltração da água e ajudando a prevenir desastres”, continua.
O diretor de Relações Profissionais do Crea-SP, engenheiro agrônomo Glauco Eduardo Pereira Cortez, utiliza a produção de soja como exemplo dos riscos enfrentados pelos produtores.
“O calendário agrícola pode ser alterado porque a irregularidade de chuvas provocada pelo El Niño desorganiza o planejamento que é feito nas áreas produtoras. Um bom exemplo é a plantação de soja, se for cultivada tardiamente, o grão amadurece em condições climáticas menos favoráveis, sofre com o calor excessivo e como consequência tem menor rendimento na safra”, esclarece Glauco.
O engenheiro também alerta para possíveis danos aos animais e às culturas perenes, entre elas a citricultura e a cafeicultura paulistas.
“O grande volume de calor pode prejudicar tanto os animais quanto as plantas, e nas culturas perenes o risco é vermos as flores caírem antes de virarem frutos”, complementa.
Diante das instabilidades, Cortez reforça a necessidade de planejamento por parte dos produtores.
“O produtor precisa trabalhar com cenários, tendo os planos A, B e C desenhados para agir de acordo com o comportamento do clima, seja ele de normalidade, seca ou chuva excessiva”, reforça.
Monitoramento ajuda na prevenção
O acompanhamento contínuo das informações meteorológicas é apontado pelos especialistas como um dos primeiros passos para reduzir possíveis danos e permitir o planejamento adequado da infraestrutura.
O meteorologista Carlos Raupp, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e conselheiro pela Câmara Especializada de Agronomia (CEA) do Crea-SP, explica que os efeitos não ocorrem da mesma maneira em todo o território brasileiro.
“Essas alterações incluem chuvas acima da média na região Sul, chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste e maior irregularidade das chuvas na região Sudeste. O monitoramento antecipado é crucial para a previsão desses eventos climáticos como o El Niño, que por sua vez possibilita um melhor planejamento e a adoção de planos de contingência”, afirma.
Engenharia e planejamento urbano diante das chuvas
Nas regiões sujeitas a enchentes e deslizamentos, planejamento urbano e monitoramento tornam-se ainda mais importantes para reduzir riscos e proteger a população.
O engenheiro civil Hassan Mohamad Barakat, gerente do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da cidade de São Paulo e conselheiro do Crea-SP na Câmara Especializada de Engenharia Civil (CEEC), destaca que períodos de chuva intensa exigem atenção especial às áreas mais vulneráveis.
“Encostas urbanizadas, margens de rios e áreas densamente ocupadas não possuem infraestrutura adequada. O risco aumenta principalmente durante períodos de chuva intensa e infiltração do solo”, conta.
Segundo Barakat, medidas de Engenharia e planejamento urbano podem aumentar a capacidade das cidades de enfrentar chuvas extremas.
“Sistemas de drenagem urbana dimensionados corretamente, piscinões, infraestrutura verde e recuperação de áreas de várzea ajudam a ampliar a capacidade de escoamento da água e aumentar a resiliência das cidades”, analisa.
Ventos severos também exigem atenção
Outro ponto levantado pelos especialistas são os ventos severos associados ao cenário climático previsto até fevereiro de 2027. Para o coordenador do Comitê de Engenharia Condominial do Crea-SP, engenheiro civil Joni Matos Incheglu, algumas premissas utilizadas em projetos desenvolvidos para condições climáticas mais estáveis precisam ser revistas.
“Quando a velocidade do vento dobra, a pressão sobre a fachada quadruplica. Em situações de rajadas excepcionais, isso pode causar danos desproporcionais, arrancando telhas, descolando painéis de fachada e comprometendo vidros subdimensionados”, exemplifica.
Sobre o Crea-SP
Criada há 92 anos, a autarquia federal é responsável pela fiscalização, controle, orientação e aprimoramento do exercício e das atividades profissionais nas áreas da Engenharia, Agronomia e Geociências. O Crea-SP está presente nos 645 municípios do Estado de São Paulo, conta com cerca de 370 mil profissionais registrados e 95 mil empresas registradas. A estrutura do Conselho inclui 28 Unidades de Gestão de Inspetoria (UGIs), 77 Unidades de Gestão de Inspetoria (UGIs) e postos de atendimento distribuídos pelo Estado.
















